segunda-feira, abril 16, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (24)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (24)

Sal da Terra e Luz do Mundo


Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mateus 5.13-16).
Essas famosas palavras de Jesus aos seus discípulos no Sermão do Monte têm sido entendidas pelos cristãos como um imperativo para influenciarem o mundo através do Evangelho, da mesma forma que o sal e a luz influenciam e transformam os ambientes onde penetram.
Provavelmente, nenhum outro movimento cristão na história melhor compreendeu esse mandato do que a Reforma protestante ocorrida no século XVI. A Reforma não foi somente um movimento espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais.
Os Reformadores deram atenção aos problemas sociais de sua época. Eles se esforçaram para entender qual deveria ser o papel da Igreja cristã na reconstrução de uma sociedade justa que refletisse a vontade de Deus em termos de justiça social. Essa questão (que era essencialmente teológica) era extremamente aguda para os Reformadores, particularmente pelo fato de viverem numa época e numa situação de grandes problemas sociais.
Os Reformadores eram acima de tudo pastores, teólogos, homens da Igreja. Não eram políticos, ativistas sociais, mas essencialmente pastores e estudiosos das Escrituras. Seu pensamento social desenvolveu-se dentro da estrutura de seus pressupostos teológicos e bíblicos. Eles construíram sua teologia social a partir da sua convicção de que Cristo é Senhor de todos os aspectos da vida humana, e de que a Palavra de Deus deve regular todas as áreas da vida. Por esquecerem este ponto, alguns acabam representando erroneamente as ideias sociais dos protestantes reformados, bem como os motivos que os levaram a se envolver com atividade social na sua época.
Fundamental para entendermos o pensamento dos Reformadores nesta área é termos em mente que para eles as causas da pobreza, miséria e a opressão, bem como da perversão e da corrupção da sociedade humana, estavam enraizadas na natureza decaída do homem, que por sua vez. O caos econômico é causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de nos suprir as necessidades básicas, conforme Cristo nos promete em Mateus 6.
Um princípio que norteava a teologia social dos Reformadores era que o Cristo vivo e exaltado é Senhor de todo o universo. Portanto, a obra de restauração realizada por Cristo não se limita apenas à nova vida dada ao indivíduo, mas abrange a restauração de todo o universo — o que inclui a ordem social e econômica.
Mas, os Reformadores eram homens de ação e não somente de discurso. Tomemos como exemplo a ação de Calvino em Genebra. Persuadido por Guilherme Farel, Calvino se deixa ficar em Genebra para auxiliar nas reformas necessárias. Logo ficou claro que, para ele, isto incluía ir além das reformas eclesiásticas. O Hospital Geral, fundado por Farel, dá assistência médica gratuita aos pobres, órfãos e viúvas, com médicos de plantão pagos pelo Estado. É criada a primeira escola primária obrigatória da Europa. Os refugiados chegados a Genebra recebem treinamento profissional e assistência médica e alimentar, enquanto se preparam para exercer uma profissão. Os pastores intercedem continuamente diante do Conselho de Genebra em favor dos pobres e dos operários. O próprio Calvino intercedeu várias vezes por aumentos de salários para os trabalhadores. Os pastores pregavam contra a especulação financeira, e fiscalizavam parcialmente os preços contra a alta provocada pelos monopólios. Debaixo da influência dos pastores, o Conselho limita a jornada de trabalho dos operários. A vadiagem é proibida por leis: vagabundos estrangeiros que não tem meios de trabalhar, devem deixar Genebra dentro de três dias após a sua chegada. E os vagabundos da cidade devem aprender um ofício e trabalhar, sob pena de prisão. O Conselho institui cursos profissionalizantes para os vadios e os jovens, para que eles possam entrar no mercado de trabalho.
E finalmente é digno de nota que havia uma vigilância da parte de Calvino e demais pastores de Genebra contra a má administração pública. Houve inclusive o caso de um funcionário corrupto que foi despedido por influência de Calvino.
Os Reformadores levavam uma vida modesta, apesar de todo o seu prestígio e influência. Na prática, procuraram viver intensamente os princípios que defenderam em sua teologia social. A sua influência estendeu-se além do seu tempo. A influência do pensamento social da Reforma ficou patente na Confissão de Fé de Westminster e nos dois catecismos adotados pelas igrejas presbiterianas no mundo. A exposição no Catecismo Maior do sexto mandamento, “Não matarás”, inclui como deveres exigidos “... a justa defesa da vida contra a violência... o uso sóbrio do trabalho e recreios ... confortando e socorrendo os aflitos, e protegendo e defendendo o inocente”. Como pecado, são incluídos “... a negligência ou retirada dos meios lícitos ou necessários para a preservação da vida... o uso imoderado do trabalho... a opressão... e tudo que tende à destruição da vida de alguém”.
No Brasil o pensamento protestante reformado quanto às questões políticas, econômicas e sociais ainda é grandemente desconhecido, muito embora sua influência seja perceptível na fundação de escolas e universidades de natureza confessional protestante.

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segunda-feira, abril 09, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (23)

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CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (23)

Cristianismo e Responsabilidade Social


Os três eixos que caracterizam os fundamentos da moderna universidade refletem três realidades que sempre estiveram bem próximas do cristianismo histórico, a saber, ensino, pesquisa e extensão.


O ensino sempre foi uma marca distintiva do cristianismo, particularmente do seu ramo reformado. Os reformadores, de Lutero a Calvino, deram grande importância à educação. Um dos alvos dos missionários reformados, desde o início, foi ter uma escola ao lado das igrejas que fundaram em terras distantes.

A pesquisa científica decorre da confiança de que estamos inseridos num mundo concreto, regido por leis e normas fixas e regulares, e que se submete à análise, compreensão e síntese. Mesmo que a moderna universidade tenha, em grande medida, excluído a visão cristã de mundo de seus corredores, continua a viver do seu legado, que nos deu a moderna ciência.

A extensão é o lado mais “humano” da universidade e que, em vários sentidos, se aproxima mais do espírito cristão. O conhecimento adquirido pela pesquisa e transmitido pelo ensino não deveria servir somente para formar intelectos, mas para ser compartilhado com a comunidade em que a universidade se encontra inserida. Isso é amor e o amor edifica.

A definição padrão da extensão universitária é que ela se constitui na interação sistematizada da universidade com a comunidade, visando contribuir para o desenvolvimento da comunidade e dela buscar conhecimentos e experiências para a avaliação e revitalização do ensino e da pesquisa. Existem diversos aspectos da extensão universitária que encontram paralelo no espírito do cristianismo.

Primeiro, o amor ao próximo, quando a extensão se traduz em ação social filantrópica, que dá sem buscar retorno. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.39). Segundo, o reconhecimento de que o saber e o conhecimento em si próprios são de pouca ou nenhuma valia, se não deságuam em ações concretas que cooperem para o bem comum, para o crescimento integral do ser humano. Aqui se encaixa as palavras do apóstolo Paulo: “todos somos senhores do saber. O saber ensoberbece, mas o amor edifica” (1Coríntios 8.1-2).

Terceiro, o reconhecimento da igualdade intrínseca de todas as pessoas. Na extensão, a universidade deixa de ser uma elite e compartilha o que sabe e o que tem com a comunidade e também aprende dela. Biblicamente falando, todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e gozam de direitos iguais. Por fim, o reconhecimento de que somos seres sociais, que fazemos parte de uma mesma raça, família, que temos uma mesma origem. Citando Paulo: “de um só, Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (Atos 17.26).

A extensão, portanto, é de extrema importância, especialmente para universidades comunitárias e confessionais. A extensão universitária pode se tornar um eficaz instrumento para abençoar as pessoas ao nosso redor, e contribuir para a democratização do conhecimento.


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segunda-feira, abril 02, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (22)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (22)

Universidade e Ecologia


A geração que hoje ocupa as universidades de nosso país receberá um legado ameaçador, que são os graves problemas ambientais que afligem o nosso planeta.[1] Muito embora devamos ser críticos em relação ao tom catastrófico e apocalíptico com que organizações ambientalistas costumam se pronunciar sobre o futuro do planeta e de seus habitantes, existe pouca dúvida de que a crise é, de fato, real. Poluição dos rios, dos mares e do ar, desmatamento, redução da camada de ozônio, não só a ameaça, mas a extinção de espécies animais, aquecimento global – são apenas alguns dos itens na pauta de ambientalistas, governos e religiosos. Essas preocupações têm a ver com a sobrevivência da raça humana num planeta cujas reservas estão sendo exauridas a passos largos. Cabe à nossa própria geração entender a situação e tomar decisões que ao menos nos permitam esperar dias menos sombrios. Nesse contexto, destaca-se o papel crucial da universidade, especialmente de natureza confessional.

Em nossa concepção, há uma relação inseparável entre os conceitos de “cosmovisão” e “ecologia”. O primeiro é uma maneira peculiar de entender nossa relação com Deus, com o próximo e com o mundo; e o segundo é o estudo das interações dos seres vivos entre si e com o meio-ambiente. Em outras palavras, aquilo que acreditamos acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo onde vivemos determinará nossas decisões quanto ao nosso planeta.
O cristianismo tem promovido através dos séculos uma cosmovisão coerente e abrangente que tem interagido com a ciência e o progresso. Nossa visão sobre o mundo que nos cerca é profundamente condicionada pelas crenças sobre nossa natureza e nosso destino – isto é, pela religião.
É aqui que encontramos a importância da universidade confessional em formar uma mentalidade cristã que proporcione uma abordagem positiva e coerente em relação aos problemas ambientais.
É um fato que encontramos entre os grandes poluidores do planeta alguns países que nasceram sob a égide do cristianismo. Tal constatação não invalida os ensinamentos bíblicos sobre o cuidado com a natureza. No máximo, sugerem que esses ensinamentos não permearam suficientemente a cultura e a mentalidade dessas sociedades. Ou ainda, que os referenciais cristãos, que num passado distante foram adotados por elas, são agora rejeitados ou distorcidos, no todo ou em parte, em nome dos interesses econômicos.
Os seguintes pontos tirados da fé cristã reformada podem servir de base para a formação de uma mentalidade ecológica cristã.
1) O mundo foi criado por Deus. A Bíblia abre com esta declaração: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1). O mundo é obra de suas mãos, mesmo que não saibamos expressar, em termos científicos, a maneira pela qual a sua Palavra trouxe todas as coisas à existência. A origem divina de tudo o que existe não significa que nosso planeta é uma extensão de Deus ou muito menos que mereça nossa adoração. Significa que ele merece nosso respeito e nosso cuidado, como o lar que Deus preparou para nós e os demais seres vivos. Significa também que Deus é o soberano Senhor da criação, como disse Davi, rei de Israel, muito tempo atrás: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1).
2) O mundo foi criado bom. Após o relato da criação encontramos esta declaração: “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31a). “Muito bom” é o veredito do Criador sobre a natureza. Ela foi declarada boa tanto pelo seu valor intrínseco quanto por sua perfeita adequação às necessidades humanas. Isso difere da visão do antigo dualismo entre matéria e espírito, que equiparava a matéria à desordem. De acordo com essa visão, a matéria é má e pecaminosa. Perspectivas que têm uma visão negativa do mundo físico ou que o separam da sua origem transcendente dificilmente podem nos dar alguma esperança de achar soluções racionais e abrangentes para nossos problemas ambientais.
3) O mundo funciona de acordo com leis e princípios estabelecidos por Deus. A convicção fundamental da ciência é que o mundo funciona de acordo com leis e princípios regulares e constantes e, portanto, previsíveis. Essa base é dádiva da visão cristã de que o mundo foi criado de forma ordenada por um único Deus, um Deus de ordem, e não por vários deuses ambíguos, contraditórios, incoerentes e caprichosos, a partir da matéria caótica, como acreditam alguns. Foram cientistas com as convicções acima, no todo ou em parte, que lançaram as bases da moderna ciência e da tecnologia, como os astrônomos Kepler e Galileu, os químicos Paracelso e Van Helmont, os físicos Newton e Boyle e os biólogos Ray, Lineu e Cuvier, para citar alguns. Somente com esses referenciais podemos entender o funcionamento do meio-ambiente, do mundo e seus recursos, perceber os desastres que estamos causando por violarmos essas leis e prever soluções.
4) O ser humano é único. De acordo com o cristianismo, o ser humano foi criado por Deus juntamente com a natureza e os demais seres vivos. Nesse sentido, é parte integrante dela. Todavia, ele foi feito de forma única, à imagem e semelhança de Deus, o que o distingue do restante da criação. A imagem de Deus implica, entre outras coisas, que o ser humano foi dotado de inteligência e, portanto, pode interpretar as leis do mundo e prover os meios de preservá-lo. Em algumas cosmovisões o ser humano, a natureza e Deus estão em níveis idênticos e fazem parte de uma mesma substância, o que torna impossível ao ser humano transcender a natureza para poder analisá-la, dominá-la e ajudá-la.

5) O ser humano é mordomo da criação. Após relatar como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o livro de Gênesis registra: “Tomou o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2.15). Deus o colocou no mundo como seu gerente e lhe deu alguns mandatos: cuidar da criação, de onde tiraria seu sustento, protegê-la e preservá-la, conhecê-la, estudá-la, para assim conhecer melhor a si mesmo e a Deus. O ser humano é o mordomo de Deus. Não é o soberano senhor, dono e déspota, mas o responsável diante de Deus pelo emprego correto dos recursos naturais, pelo seu próprio desenvolvimento de forma sustentável e pela preservação dos demais seres vivos.
6) Vivemos num mundo afetado pelo pecado. De acordo com a Bíblia, quando o ser humano colocado no jardim se revoltou contra o Criador, precipitou no caos a si mesmo e a criação pela qual era responsável. “Maldita é a terra por tua causa” (Gênesis 3.17) foi a sentença do Criador ao ser humano, agora sujeito à morte, a retornar ao pó de onde fora tirado. Tensões se estabeleceram entre Deus e o ser humano, entre o ser humano e seus semelhantes, e entre o ser humano e a natureza. A crise que vivemos hoje se deve a estas tensões. Separado espiritualmente de Deus, o ser humano perdeu a referência da sua existência e da relação criatura-Criador. Essa última perda, em especial, afetou profundamente a sua maneira de ver o mundo, que ele ora agride e exaure, ora venera e teme como a um deus.
Vivendo em tensão emocional em relação aos seus semelhantes, o indivíduo dedica-se a buscar seus próprios interesses, mesmo que à custa do próximo. A exploração egoísta e desenfreada dos recursos naturais é feita sem levar em consideração que os mesmos faltarão à próxima geração.
Em tensão com a natureza, o ser humano a explora, agride e exaure, em nome do poder, do lucro e do progresso. O meio ambiente é para ele somente um bem de consumo.
Diante do exposto, entendemos que os problemas ambientais são primeiramente de origem moral e espiritual. Entendemos ainda que a solução passa pela transformação interior das pessoas, uma mudança de mentalidade com relação a Deus, ao próximo e à natureza. Em suma, é esse o apelo e o chamado do Evangelho. Uma abordagem ecológica que tenha os fundamentos acima como referência poderá escapar dos extremos de algumas perspectivas populares sobre a preservação do meio ambiente. Por exemplo, uma visão mística, em que o ser humano não mais é entendido como mordomo de Deus encarregado de cuidar, desenvolver e usar a natureza com sabedoria. Ao contrário, é entendido como servo dela, com a obrigação de preservá-la, como se ela fosse sagrada e como se o ser humano devesse manter uma atitude de adoração para com ela. Essa visão impede o uso inteligente e racional dos recursos naturais, a busca de soluções para os graves problemas humanos e o desenvolvimento do ser humano em geral.
Outra perspectiva que deve ser evitada é aquela visão sentimentalista da natureza, que tem como ideal a vida rural. Por mais atraente que tal visão seja, ela não faz justiça à vocação e à responsabilidade do ser humano. O progresso do ser humano, conforme a Bíblia, é do jardim para cidade, e não necessariamente de volta para o campo. Essa visão, à semelhança da anterior, impede que o ser humano explore com sabedoria e responsabilidade os enormes recursos naturais à sua disposição e que podem promover seu progresso e bem-estar, e isso sem a depredação da natureza.

Há também a visão antropocêntrica, que coloca o ser humano no centro e recorre a soluções tecnológicas para a crise ecológica que, além de serem extremamente caras, acabam mantendo a atitude de desprezo para com o meio-ambiente. Essa visão tende a agravar a crise e a lançar o ser humano cegamente no caminho da autodestruição.
Cremos que a fé cristã reformada provê as premissas epistemológicas, morais, espirituais e éticas para que possamos lutar pelo meio ambiente e em prol do nosso planeta, fazendo ecologia de forma coerente e integral.


[1] Este capítulo é baseado no texto da Carta de Princípios 2007 da Universidade Presbiteriana Mackenzie, “Universidade e Ecologia,” de autoria da Chancelaria.


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segunda-feira, março 26, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (21)

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CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (21)

Sexo na Universidade


A universidade, além de ser o local aonde os jovens vão para adquirir uma boa educação e se preparar para o futuro, acaba sendo o ponto de partida para o sexo casual, às vezes com consequências sérias para o resto da vida. Entre estas, podemos mencionar a gravidez indesejada, os abortos e as doenças sexualmente transmissíveis (DST). Em muitos casos, o sexo fortuito ocorre associado com uso de bebidas alcoólicas e drogas que se inicia nos bares no entorno das universidades.

Do ponto de vista cristão, o sexo é uma dádiva de Deus, que desfrutado da maneira correta, é fonte de alegria, satisfação e realização. O cristianismo limita o relacionamento sexual ao casamento. Mas, não é necessário lançar mão do viés religioso para se perceber que o apelo sexual na universidade acaba abrindo as portas para relacionamentos complicados. Os mesmos podem trazer problemas de ordem emocional, psicológico e até legal (como a curetagem e o aborto clandestinos), que acabam prejudicando não somente a carreira estudantil, acadêmica e profissional do jovem, mas sua vida como um todo.
O sexo não é apenas um momento fisiológico de prazer. Por causa da natureza humana, a sexualidade está entretecida com nossa dimensão emocional, psicológica, moral, social e religiosa. As relações sexuais, mesmo as fortuitas e casuais, acarretam apegos e paixões, por um lado, culpa, raiva e nojo, por outro – emoções poderosas que conturbam a paz interior das pessoas, especialmente de adolescentes recém-chegados à universidade.
Jovens com a vida emocional conturbada por relacionamentos sexuais complicados podem acabar levando para a sala de aula estas perturbações, que roubam a paz de espírito e a tranquilidade necessárias para ler, aprender, estudar, pesquisar e escrever. As estatísticas mostram que o maior índice de óbitos decorrentes de curetagem ilegal se dá entre jovens na faixa de 20 a 29 anos, faixa etária onde se insere a maior parte dos universitários. Uma pesquisa da ocorrência de aborto entre jovens de uma universidade brasileira mostrou que mais de 50% das que engravidaram fizeram curetagem, com maior incidência das mais jovens. Todavia, não creio que precisemos de pesquisas estatísticas para afirmar que jovens viciados em sexo e afundados em problemas de relacionamento frequentemente acabam se dando mal academicamente.
É triste assistir ao desperdício voluntário de talentos por parte de jovens que cedem aos engodos da cultura pós-moderna na área de sexualidade, a qual reduz o sexo a uma mera função biológica orientada para o prazer momentâneo e inconsequente.
A fé cristã reformada valoriza a família, o sexo no casamento, sem reduzi-lo a mera função procriadora. Valoriza o trabalho, o bom desempenho acadêmico e o exercício eficaz da profissão como parte da cidadania e da vocação cristã. Na Bíblia encontramos a história de um jovem líder do povo judeu chamado Sansão, com potencial para ser um dos maiores juízes do seu povo. Todavia, os repetidos envolvimentos sexuais de Sansão, e as consequências que os mesmos trouxeram, acabaram por arruinar sua carreira (veja Juízes 14.1-2; 16.1; 16.4; 16.19; 16.28-30). A Bíblia também registra o encontro de Jesus com uma mulher sedenta de sentido e propósito na vida, mesmo após ter tido cinco maridos e estar vivendo com um amante. Em Jesus ela encontrou a plena satisfação para seu coração vazio (João 4.7-29).
Os pais e professores deveriam aconselhar os jovens a não trocarem um futuro promissor por prazeres inconsequentes e passageiros. No Evangelho de Jesus Cristo encontrarão perdão para erros cometidos e a força necessária para resistir aos apelos que não levam em conta as consequências e os efeitos de atos impensados.

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segunda-feira, março 19, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (20)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (20)


Por Que Universitários se Drogam?
O consumo de álcool e o uso de drogas pelos estudantes é um dos maiores pesadelos das universidades, especialmente daquelas que levam a sério o seu caráter confessional – apesar de que o problema não tem apenas um viés religioso.
As drogas – inclusive o álcool – trazem grandes problemas para todos. Da perspectiva do aluno e da instituição, o primeiro problema que surge é o desempenho acadêmico que cai e os relacionamentos que se deterioram, tanto entre os colegas como com os professores. Por detrás de uma parte do fraco desempenho acadêmico estão o álcool e as drogas. Isto tudo vem acompanhado de brigas, confusões e desentendimentos, dentro e fora de sala.
Este comportamento é seguido, ou fomentado, pelo comércio de bebidas no entorno das universidades, que não só servem para a venda de álcool, mas também para abrigo de traficantes e pontos de venda de drogas. O que poderia ser um problema somente interno torna-se, agora, um problema de segurança externa, pois com as drogas segue-se a criminalidade.
Uma outra consequência, então, é a própria imagem das universidades, que passam a ser mal vistas por conta da venda de bebidas e drogas em seu entorno e pelas festas onde alunos em coma alcoólica são levados de urgência a hospitais da região. Estes arranhões na imagem das universidades acontecem ainda que tais festas e a venda de drogas ocorram fora de seus campi e, portanto, fora de seu controle.
As causas sociológicas que levam jovens universitários ao uso das mais diversas drogas são várias e complexas. Creio que começam com um pressuposto filosófico comum à nossa cultura pós-moderna, que é o hedonismo como resposta ao vazio da alma. Tudo isto está relacionado com os problemas familiares, desejo de aceitação nas “tribos urbanas” e o vazio existencial da nossa juventude. Boa parte destas explicações tende a transformar os estudantes alcoólicos e drogados em vítimas ou em pessoas doentes. Não se pode, todavia, esquecer-se da responsabilidade pessoal de cada um deles pelas escolhas que fizeram. Esquecer isto é cair na tendência de auto vitimização da nossa sociedade.
O assunto é tão complexo que soluções minimalistas e simplistas não ajudarão. Ao que parece, campanhas de prevenção tocam apenas na superfície do problema. A repressão policial nos bares e pontos, ainda que acontecesse, não convenceria os estudantes. É preciso admitir que somente a pregação religiosa da necessidade de arrependimento e conversão a Cristo também não atenderia à complexidade da situação. Existem aspectos estruturais e sociais do assunto que precisam da intervenção de outros braços, além do religioso.
Todavia, uma solução que integrasse estas abordagens poderia ter alguns resultados positivos. É certo que campanhas bem instruídas que procurassem conscientizar os estudantes de que os principais prejudicados com o uso de drogas e álcool são eles mesmos, suas carreiras, seus relacionamentos e suas (futuras) famílias, seriam um passo importante. Ao lado das campanhas, a cooperação das autoridades na repressão ao tráfico no entorno das universidades, responsabilizando estes alunos civilmente, poderia abrir os olhos de vários quanto ao tipo de consequências que suas ações trazem. Poucos estudantes estão conscientes de que se forem fichados na polícia poderão ser impedidos de participar de concursos públicos no futuro. A seguir, a expulsão das universidades de traficantes que se matricularam como alunos, quando devidamente identificados e processados. Junto com estas atividades, o atendimento psicológico aos que desejarem ajuda para se livrar do vício e quem sabe até encaminhamento para instituições de recuperação de drogados e alcoólatras.
E por fim, mas não menos importante, a assistência espiritual aos estudantes e família. Pois, afinal, uma das causas – se não a mais fundamental de todas – para que uma pessoa se alcoolize e se drogue é uma insatisfação interior consigo mesma, um vazio existencial e conflitos internos não resolvidos, um fardo de culpa na consciência e coisas assim, que podem ser atendidas quando se tem um relacionamento significativo e profundo com Deus, na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. Uma transformação interna ocasionada pela Palavra de Deus trará verdadeira libertação das cadeias existenciais, incluindo a escravidão às drogas.

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segunda-feira, março 05, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (19)

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CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (19)

A Contribuição da Universidade para a Ética na Política


A expressão “ética na política” expressa o desejo de que o poder político seja exercido da forma correta e para os fins legítimos. Ela ganhou muita atenção recentemente em nosso país diante de denúncias de corrupção envolvendo pessoas públicas de diferentes níveis de autoridade. Em decorrência, muitas propostas e movimentos em favor da ética na política têm surgido.
[1]
O que se percebe claramente num primeiro olhar sobre a ética na política é a necessidade de referenciais seguros e consistentes nos quais os apelos à moralização sejam fundamentados. Toda ética pressupõe um conjunto de valores com base nos quais se tomam decisões. Todavia, desconstruída pelo relativismo moral e pelo individualismo de nossos dias, a ética na política aparenta carecer de fundamentos coerentes que lhe permitam fazer pronunciamentos morais e moralizantes. Qual a base para se clamar por honestidade, sensibilidade, verdade, sinceridade, integridade e altruísmo na política se estes são conceitos considerados relativos e subordinados ao pragmatismo individualista, conforme a mentalidade de nossa época? Qual a base para se clamar em prol dos oprimidos, excluídos e sem-nada do nosso país se o ser humano é visto como fruto do meio e da seleção natural, onde sobrevivem os mais aptos, leia-se, os mais espertos, independentemente dos meios que se utilizam para isto?

Em grande parte, este vácuo de absolutos foi gerado pela secularização gradual das culturas e do Estado e pelo abandono no Ocidente dos valores morais e espirituais do cristianismo, que um dia serviram de fundamento para o surgimento das políticas democráticas. O humanismo materialista, centrado no homem, não tem conseguido produzir um sistema de valores abrangente que permita uma chamada coerente à ética na política. Entendemos que a ética cristã está fundamentada em princípios e valores revelados por Deus nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, a Bíblia, e que, portanto, oferece uma visão unificada e coerente da vida e um apelo consistente à moralização do Estado. Quando na História, antiga e moderna, governantes e regimes despóticos e totalitários reivindicaram fundamentação no cristianismo para suas barbáries, estavam, na realidade, fugindo do ensinamento do cristianismo bíblico e histórico.

A força política do protestantismo reformado se fundamenta em diversas premissas sobre Deus e sobre o homem ensinadas na revelação bíblica. São elas: a igualdade de todos os homens diante de Deus, a vocação individual de cada ser humano por Deus, a doutrina do sacerdócio universal de todos os cristãos genuínos, que entende que a autoridade deve ser exercida como uma delegação concedida por Deus ao povo e do povo aos governantes, a doutrina da autoridade das Sagradas Escrituras, a Bíblia, que despertou o povo para estudar, instruir-se e assim gerir seus destinos, e o ensino de que as autoridades políticas são constituídas por Deus e respondem diante dele pelo exercício do poder. Conforme o estudioso francês André Biéler em seu livro A Força Oculta dos Protestantes,
A democracia não consegue instalar-se nem permanecer lá, onde as premissas religiosas ou filosóficas profundas das populações são estranhas aos princípios evangélicos, iluminados pelo cristianismo reformado (1999, p.50).

O principal conceito da visão reformada quanto à política é que somente Deus tem poder absoluto. Desse conceito decorrem vários princípios que moldam a visão reformada da política e apontam o caminho da ética. Mencionamos alguns deles.

A fé reformada faz a clara distinção entre Igreja e Estado, mas vê toda autoridade como procedente de Deus (Romanos 13). Os governantes são vistos como servos de Deus neste mundo, para através da política e do exercício do poder promover o bem comum, recompensar os bons e punir os maus. Como tal, haverão de responder diante de Deus pela corrupção na política, pela insensibilidade e pelo egoísmo. A visão do cargo político como sendo uma delegação divina desperta no povo o devido respeito pelas autoridades, mas, ao mesmo tempo, produz nestas autoridades o senso crítico do dever.

A fé reformada resiste ao conceito da soberania absoluta do Estado, “um produto do panteísmo filosófico alemão,” conforme nos diz Abraham Kuyper em Calvinismo (2002, p. 96), e ao conceito da soberania absoluta do povo, conforme defendido pela revolução francesa. O poder reside em Deus. Tanto o poder do Estado quanto do povo são delegados por ele visando à organização da humanidade. Como consequência, a fé reformada defende que nenhum ser humano tem poder sobre outro, a não ser quando delegado por Deus, ao ocupar um cargo de autoridade. Desta forma, a fé reformada se levanta contra toda opressão política à mulher, ao pobre e ao estrangeiro, contra todo sistema político que produza escravidão, contra o conceito de castas e da distinção entre sacerdotes e leigos. Luta para que cada pessoa seja reconhecida e tratada, em termos políticos e sociais, como uma criatura feita à imagem de Deus.
Já que o poder não é intrínseco ao ser humano, mas uma delegação divina, deve-se resistir a quem exerce o poder político em desacordo com a vontade de Deus. Esta vontade divina para os governantes se encontra claramente expressa na Bíblia, como por exemplo, nos Dez Mandamentos. Entre eles encontramos proposições como “não furtarás”, “não dirás falso testemunho”, “não matarás”. Essas proposições refletem absolutos éticos presentes em todas as civilizações, em função de todos os seres humanos levarem em sua constituição a imagem e semelhança de Deus – com maior ou menor precisão, em função da imperfeição moral existente na humanidade. Nenhum governante tem imunidade contra a Lei de Deus. Na tradição protestante reformada, resistir à corrupção na política é dever de todos e a vontade de Deus para cada cristão verdadeiro.
Um outro conceito fundamental da visão reformada é que a humanidade se encontra em um estado de queda moral e espiritual, sendo em princípio inclinada a fazer o mal antes que o bem. Em decorrência disto, mais dois princípios norteadores da ética na política se seguem. O primeiro é o entendimento da política como uma necessidade diante desta situação de queda moral. Foi por esta causa que Deus instituiu os magistrados. É imprescindível que haja autoridade que reprima a injustiça, proteja os inocentes, socorra os oprimidos e promova o bem-estar dos cidadãos. A política, como ciência de governar, se torna indispensável, para que os governantes exerçam sua função com verdade e justiça. A fé reformada acata e se submete aos poderes constituídos, embora negue ao Estado o direito de se imiscuir em matérias de religião. Reconhece a necessidade do exercício da autoridade, mas jamais ao custo da liberdade de consciência, dom precioso de Deus.
O segundo é que a corrupção na política tem origem primariamente no coração dos seres humanos. A Bíblia afirma que não há sequer uma pessoa justa neste mundo. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Jesus Cristo disse que é do coração dos homens e das mulheres que procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19-20). Quando a causa é identificada, há condições de se buscar o remédio adequado. Aqui se percebe a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e antropológicos da corrupção na política, deixando de incluir a dimensão pessoal: egoísmo, maldade, crueldade, despotismo, avareza, inveja, cobiça. O protestantismo reformado prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus, que se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça.
Por fim, o conceito de graça comum (concedida a todos) ensina que há princípios gerais que, se seguidos e aplicados, produzirão a ética na política. Segundo este conceito, Deus abençoa a humanidade em geral com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas e políticas das pessoas. É por este motivo que encontramos quem se professa cristão e não tem ética, e encontramos a ética funcionando pelas mãos de quem não se declara cristão. Ao reconhecer a graça comum de Deus, o protestantismo reformado entende que o caminho para a ética na política não é necessariamente converter todos ao cristianismo e nem colocar em cargos políticos quem se professa cristão, mas contribuir para que os princípios acima mencionados sejam reconhecidos e exercidos por todos, independentemente da convicção religiosa.
O protestantismo reformado, desde o seu início, foi uma das forças geradoras da democracia moderna, com seu espírito revolucionário, defensor da liberdade e desafiador das estruturas religiosas, sociais e políticas que escravizam o homem. As inúmeras universidades reformadas que nasceram após a Reforma protestante nos países que a abraçaram, como Suíça, Inglaterra, Holanda, Escócia, Hungria e posteriormente os Estados Unidos, se tornaram centros difusores dos princípios da Reforma, quer pela produção e ministério de seus docentes, quer pela formação de centenas e centenas de cidadãos imbuídos deste mesmo espírito. Podemos mencionar entre elas as universidades de Genebra, Harvard, Yale, Princeton e a Universidade Livre de Amsterdã. Nelas, foram estudados e transmitidos os princípios e valores que serviram de base para a formação de uma consciência ética na política desses países. Muitos dos grandes estadistas, chefes políticos e autoridades civis dos países mais desenvolvidos estudaram em universidades reformadas. Estas universidades, sendo confessionais, adotaram em sua fundação, como referencial explícito, as confissões de fé oriundas da Reforma protestante.
As universidades são centros formadores dos que haverão, um dia, de influenciar a opinião pública e, talvez, exercer o poder político. Elas têm um papel crucial diante do clamor nacional por ética na política. E sem excluir as demais, as universidades confessionais têm uma oportunidade histórica de contribuir para que este clamor seja atendido, ainda que a longo prazo, visto que a eficácia da universidade, neste aspecto, reside no processo de educar cidadãos.



[1] Este capítulo é baseado na Carta de Princípios 2006, “Ética na Política e na Universidade”, cujo texto foi elaborado pela Chancelaria.

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