quinta-feira, novembro 16, 2017

Mauro Meister

Esse Olhos Irlandeses Não Piscam (uma matéria sobre a questão do aborto)

Esse Olhos Irlandeses Não Piscam

Phelim McAleer & Ann McElhinney: Jornalistas Merecedores do Nome


by Terrell Clemmons

Tradução por Ana Boechat Wiebe

Phelim McAleer estava na Pensilvânia no começo de 2013 fazendo uma série de exibições do seu filme FrackNation. Como ele geralmente fazia quendo viajava, procurou no jornal local por casos judiciais em andamento, e um caso sobre um médico na Filadélfia chamou sua atenção. E aconteceu que num dos seus dias de folga entrou no tribunal onde o abortista Kermit Gosnell estava sendo por uma série de acusações, incluindo (mas não limitado a) assassinato, infanticídio, e violações múltiplas da lei estadual de abortos.

Phelim tinha visto muito nos seus vinte e cinco anos de jornalismo (ele começou sua carreira numa parte da Irlanda do Norte conhecida como “Território Bandido”), mas a evidência que ele viu na Sala 304 do Centro de Justiça da Filadélfia ultrapassou tudo o que ele havia encontrado anteriormente. As fotos exibidas numa telona – fotos de bebês bem formados, alguns cujo o pescoço tinha sido cortado com uma tesoura depois de nascerem vivos – eram mais horríveis que qualquer outra coisa que ele já tinha visto. Tudo isso já chocava por si só, mas foi ainda mais espantoso pra ele, como jornalista, ver que a galeria de imprensa atrás dele estava completamente vazia. Não havia nenhum jornalista de nível nacional cobrindo este caso. Nem um. Como assim?

Ele voltou pra casa em Los Angeles e contou para sua parceira e também esposa, a jornalista Ann McElhinney, que tinha encontrado o próximo projeto em que eles trabalhariam. Esse assunto era território desconhecido pra eles, totalmente fora da sua zona de conforto. Além do que, tanto ela quanto Phelim sempre se consideraram neutros com respeito a questão do aborto. Por que então entrar no ninho de vespas?

De qualquer forma, Phelim pediu as transcrições do tribunal e Ann os leu. Mais tarde, ela concordou que sim, eles iriam fazer um filme. Foi mais que uma concordância ou uma aptidão compartilhada. Foi uma convicção. Tinham uma informação importante de interesse público, e era uma vergonha ninguém estar publicando a respeito. Um filme sobre isso teria que ser feito; assim sendo, eles fariam.

Verdade – Falando no Interesse Público

Seria um empreendimento controverso, mas Phelim e Ann não eram amadores em cobrir controvérsias. Ambos nativos da Irlanda, tinham começado com a imprensa escrita, mas depois passaram a ser documentaristas. Para uma das suas primeiras produções, The Search for Tristan’s Mum, Ann se infiltrou secretamente no corrupto tráfico de bebês na Indonésia. Como resultado da sua investigação, Tristan retornou para a sua mãe biológica e os traficantes que venderam o bebê, colocados na cadeia. 

Enquanto eles moravam na Romênia, no começo dos anos 2000, um alvoroço surgiu sobre uma mina de ouro na Transilvânia chamado de Projeto Rosia Montaña. Eles viram os ambientalistas ocidentais e grupos ativistas como o Greenpeace entrar com suas agendas, falando no lugar dos moradores como se esses não pudessem falar por si mesmos. Pior ainda, a mídia não estava reportando a verdade do assunto – que a vasta maioria dos locais queriam muito a mina.

A situação da Rosia Montaña provocou um tipo de conversão momentânea de 2 níveis. Eles viram que (1) o capitalismo era o sistema econômico que melhor se adequava pra tirar as pessoas da pobreza, e (2) que o jornalismo convencional não só estava fazendo um trabalho de péssima qualidade ao reportar a verdade mas era, certamente, corrupto, na medida que a narrativa desses ambientalistas externos estava sendo relatada, em vez da atual realidade do que acontecia. Então, em 2006, eles lançaram Mine Your Own Business, que contou a verdade sobre a vila mineira e também inspecionou outros projetos de mineração do mundo em desenvolvimento, que estavam sob ameaça da oposição por poderosos interesses externos.

Continuando com o tema do Grande Ambientalismo e o efeito que pode ter nas comunidades empobrecidas, em 2009 eles produziram Not Evil Just Wrong, que pesquisou e criticou a histeria sobre o aquecimento global. Então, em 2013, veio o FrackNation, na qual Phelim encarou ameaças, policiais e ações judiciais falsas ao contar as histórias dos americanos em zonas rurais cujos meio de subsistência estavam em risco por causa da fracturação hidráulica (NT. um método de extração de gases de rochas rasas).

Logo, enquanto o julgamento de um médico abortista parecia ser a mudança de direção num nível mais básico, foi, na verdade, a continuação dos trabalhos jornalísticos de reportar os fatos, histórias que os principais jornais estavam reportando erroneamante, ou, no caso de Gosnell, ignorando completamente.


Descoberta Acidental

Ironicamente, a “Casa dos Horrores” de aborto, como as Sociedade das Mulheres Médicas da Filadélfia, no número 3801 Lancaster Avenue vieram a ser conhecidas, também foi descoberto acidentalmente. Kermit Gosnel tinha estado sob investigação por estar vendendo receitas médicas ilegais no começo dos anos 2010, quando Tosha Lewis, um informante recrutado como funcionário da clínica do Gosnell, casualmente mencionou que uma mulher asiática tinha falecido na clínica uns meses atrás. Tinha algo na sua morte, de acordo com Tosha que “não parecia certo”. Os investigadores da narcóticos foram procurar nos relatórios policiais, mas não havia nenhum relatório. Esse quebra-cabeças levou a mais perguntas, em seguida a mandados de busca e, então, finalmente a coordenação de uma busca que incluiu os investigadores da narcóticos, o Departamento de Saúde do Estado da Pensilvânia, a Agência Federal de Controle de Drogas, e o FBI – no total, mais de 20 participantes.

Eles entraram num verdadeiro pesadelo acordado. Um gato dominava o pedaço e o cheiro de fezes e urina de gato junto com fenaldeído dominavam no ar. Havia sangue no chão, urina nas escadas e pilhas de lixo em todo o lugar. As cadeiras, cobertores, e toda a superfície estava coberta de pelo de gato, e o equipamento médico era anti-higiênico, antigo, enferrujado e jogado ao acaso, num variado estado de destruição.

Quanto mais ele olhavam ao redor, pior ficava. Um armário de metal guardava jarros com pés que foram cortados de bebês. Geladeiras e freezers estavam espalhados sobre o pavimento – junto com um labirinto contendo mais restos de fetos ensanguentados – eles foram colocados em jarros de água usados, jarros de leite, potes de comida de gato, sacolas plásticas e jarros de suco. O porão abrigava restos de fetos empilhados até o teto.

Parecia coisa de filmes de terror, mas esse não era um set de filmagens de Hollywood. Era vida real. Mulheres semi-conscientes gemiam na sala de espera, enquanto que nenhuma das pacientes pós operadas estavam conectadas a qualquer aparelho de monitoramento. Duas estavam com um sangramento tão forte e em estado de choque que os paramédicos foram chamados, apenas pra descobrir que a porta da saída de emergência havia sido trancada com cadeado, e ninguém encontrava a chave. 

Enquanto isso, Gosnell queria fazer um aborto ao mesmo tempo que os investigadores faziam seu trabalho. Quando ele terminou, sentou-se em sua mesa com luvas cirúrgicas rasgadas e ensanguentadas e comeu seu jantar, gesticulando com seus hashi enquanto respondia as perguntas dos investigadores.

Claramente a equipe havia tropeçado numa cena de crime que foi além da corrida das drogas e uma more suspeita.

Documentando uma Tragédia Americana

No final, a máquina do sistema de Justiça da Pensilvânia enviou Kermit Gosnell para prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. O desafio para Phelim e Ann foi como documentar verdadeiramente e com tato as múltiplas realidades inquietantes deste caso.

Com grande profissionalismo eles entrevistaram oficiais da polícia local, da Agência de Fiscalização de Drogas, o FBI, as agências de Supervisão do Estado, juntamente com os funcionários da clínica e ex-pacientes. Por fim, Ann decidiu escrever um livro sobre o caso, além de fazer o filme. “É perturbador que essa história não seja amplamente conhecida”, ela explicou. E houve aspectos do caso que não estariam no filme, mas que seriam gravados. “As pessoas deveriam saber essas coisas”, ela disse, com seu sotaque Irlandês acentuando sua convicção.

O resultado é Gosnell, A História Não Contada do Serial Killer mais Produtivo da América, uma virada de página jornalística pro caso, que é necessário ler para crer. E q
uando você acha que não pode ficar pior, fica. Ao longo do caminho Ann expõe uma falha atrás da outra, claramente nomeando os oficiais cujas responsabilidades era fazer cumprir a lei ou garantir que os padrões médicos que protegessem as mulheres e crianças fossem mantidos, mas que ignoraram os sinais claros, fizeram vistas grossas ou desprezaram a lei. A mídia local ou nacional não fez melhor. 

Ela admite que foi difícil:
Ler o testemunho e verificar a evidência na pesquisa pra esse livro e pra escrever o script do filme foi brutal. Eu chorei sobre  meu computador. Eu orei o Pai Nosso na minha mesa de trabalho. Eu não sou um exemplo de santidade – não havia orado por muitos anos – mas quando fui confrontada com o pior dessa história eu não sabia o que mais poderia fazer.

Mais Momentos de Conversão

Até Gosnell, ela achava os ativistas pró-vida desagradáveis – muito fervorosos, muito religiosos, talvez até manipuladores. Afastem-se com suas fotos assustadoras, pensava, tenho certeza que as fotos são manipuladas. Depois de saber sobre o caso do Gosnell, então, tudo mudou. As fotos mostradas no tribunal não eram de ativistas. Elas foram de detetives policiais, examinadores médicos e funcionários da clínica de Gosnell que testemunharam sob juramento.

Semelhantemente, as vozes no seu livro e no filme não são vozes pró-vida. O testemunho mais poderoso no julgamento, Ann disse, foram aqueles dos próprios médicos abortistas, ao descrever o que constituía “um bom aborto legal”. Quase todos os jurados eram pró-escolha no começo, mas alguns deixaram escapar suspiros audíveis quando uma testemunha especialista em aborto explicou detalhadamente o que ela fez. Não foi só Phelim, Ann, e membros do juri que reexaminaram suas opiniões. “Procuradores, diversos jornalistas e até o próprio advogado de Gosnell experimentaram mudança de coração e mente”, Ann escreveu. 


"Basicamente, uma vez que você descobre a verdade sobre o Aborto, você deixa a narrativa fácil de ser a favor do aborto muito rápido”, disse Phelim. “Aborto é como um artigo de fé pra algumas pessoas, sabia? Eles não pensam muito sobre isso, mas eles apenas são pró-aborto. Posso dizer, a fé deles foi quebrada. A fé de todos foi quebrada.”

Mudar a mente das pessoas, no entanto, não é uma coisa que eles pretendem fazer. “Costumava-se dizer no meio jornalístico, se você quer mandar uma mensagem, mande um Telex”, Phelim disse. “Nós não estamos aqui para mandar uma mensagem. Nós estamos aqui contar a verdade”. Então, quanto a Gosnell, “nossa mensagem, tanto para quem é pró-vida quanto pró-escolha é, encontre a verdade. Tome uma decisão informada. Porque quando você encontrar a verdade sobre o aborto, sendo pró-aborto, essa verdade vai abalar sua confiança nesta sua posição. E é exatamente isso que o jornalismo deve fazer”.


Tanto Phelim quanto Ann esperam que através do livro e do filme, as pessoas encontrem a verdade e que algo como a clínica de Gosnell nunca mais aconteça. “A verdade é muito, muito importante”, Phelim diz, “e a verdade te libertará. Isso é o que eu quero”.


Terrell Clemmons é um escritor freelance e blogueiro em apologética e questões de fé.
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segunda-feira, novembro 13, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (5)


Um Apelo em Favor da Verdade

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32).

A busca da verdade e sua divulgação é sem dúvida um dos objetivos de toda instituição de ensino, e muito mais daquelas instituições que se declaram confessionais. Todavia, nossa época entrará para a história do mundo como aquela em que a tentativa de relativização da verdade foi feita em todos os âmbitos da vida, deste a questão dos valores morais até aqueles considerados mais subjetivos, como os conceitos religiosos.

Nem sempre as pessoas pensaram de maneira relativista. Não faz muitas décadas, era possível se dizer a uma adolescente de 16 anos “Comporte-se”, e ela saberia perfeitamente o que aquilo queria dizer. A chegada da assim chamada pós-modernidade colocou em questão não somente a existência da verdade, como também a possibilidade de conhecê-la e, mais ainda, a necessidade para isso. E para muitos, podemos acrescentar que falta o desejo de conhecer a verdade.

Todavia, percebe-se uma grande incoerência e hipocrisia em nossa sociedade quando clama pela verdade, luta pela verdade, naquilo que lhe interessa, e quando chega às questões morais, espirituais e religiosas, as pessoas são possuídas subitamente por um espírito de relativismo que se recusa a ser exorcizado a não ser mediante forte persuasão.

Todos nós demandamos a verdade em todas as áreas da vida. Queremos que a esposa, o marido e os filhos nos digam a verdade, queremos que o médico nos diga a verdade, queremos que os corretores da bolsa de valores onde aplicamos o nosso dinheiro nos digam a verdade quando nos recomendam as ações nas quais aplicar, queremos que o juízes e os árbitros façam um trabalho correto e verdadeiro, queremos que os nossos empregadores sejam verdadeiros e nos paguem com justiça, queremos que o noticiário, a mídia, e a imprensa sempre nos digam a verdade, bem como os rótulos de remédios e as sinalizações nas estradas e rodovias.

Quando desconfiamos que a verdade nos esteja sendo negada, ficamos indignados, sentimo-nos traídos, e também que os nossos direitos como cidadãos nos foram tirados. Consideramos a falsidade, a mentira, o faltar com a verdade, como sendo crimes, e a mentira até foi incluída na lista dos sete pecados capitais da hamartologia católica.

Quando demandamos que as pessoas nos digam a verdade, estamos pressupondo que a verdade existe, que é possível de ser reconhecida, e que é válida para todos. Todavia, quando chegamos aos labores acadêmicos, quando assumimos nossa identidade de intelectuais, às vezes cometemos uma grande incoerência, quando passamos não somente a aceitar, mas também a ensinar que a verdade não existe, que ela é relativa, que não existem verdades absolutas, especialmente no campo da moral e da espiritualidade. Até quando dizemos: “não existe verdade!” queremos que as pessoas recebam essa declaração como verdadeira! E quando dizemos que tudo é relativo, ficaremos bravos se alguém considerar essa declaração como sendo também relativa.

Por que exigimos verdade em tudo, exceto na moralidade e naquilo que é transcendente? Por que relativizamos a verdade quando estamos falando sobre moralidade e religião, mas nunca pensamos em fazê-lo quando estamos falando com um corretor de ações da bolsa de valores sobre o nosso dinheiro ou com médicos sobre a nossa saúde?

Sobre isso, gostaria de citar neste contexto alguns pontos sobre a verdade que Norman Geisler chama de “As verdades sobre a verdade”, em sua obra Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu (p.38). São eles:

1) A verdade é descoberta e não inventada. Ela existe independentemente do conhecimento que uma pessoa tenha dela. Por exemplo, a lei da gravidade já existia antes de Newton.

2) A verdade é transcultural. Se alguma coisa é verdadeira, então é verdadeira para todas as pessoas, em todos os lugares, em todas as épocas, como por exemplo, o resultado de 2 + 2.

3) A verdade é imutável, embora a nossa crença sobre ela possa mudar, como por exemplo, quando passamos a acreditar que a terra era redonda em vez de plana. A verdade sobre a terra não mudou. O que mudou foi nossa crença sobre a forma da terra.

4) As crenças das pessoas não podem mudar a verdade, por mais honestas e sérias que sejam. E nem a verdade é afetada pela atitude de quem a professa ou de quem a nega.

5) Todas as verdades são verdades absolutas, embora pareçam relativas. Por exemplo, “Eu, Pedro, senti muito calor hoje”. Embora a sensação de calor de Pedro seja relativa, permanece verdadeiro em todo lugar do planeta que no dia de hoje ele sentiu o calor.

6) A verdade permanece a mesma, o que é relativo é a nossa percepção dela. Contudo, mesmo a relatividade da percepção é menor do que geralmente se pensa, pois as pessoas costumam perceber a realidade e a verdade de uma maneira muito mais unânime e comum do que nos querem fazer acreditar.

Minha palavra aqui, portanto, é em defesa da verdade, da coerência, da consistência. Formadores de opinião são responsáveis por manifestar coerência em todos os departamentos da vida e da conduta. Se exigimos verdade dos outros, assumamos o que está implícito: a existência da verdade, a possibilidade de que ela seja conhecida, e a sua necessidade, para que possamos viver relacionamentos verdadeiros, no mundo verdadeiro, para que sejamos pessoas verdadeiras e livres, pois como disse Jesus, “A verdade vos libertará”.

E se alguém fizer a famosa pergunta de Pilatos a Jesus, "o que é a verdade," espero que não faça como Pilatos, que virou as costas e se afastou de Jesus, antes que esse pudesse responder. Se Pilatos tivesse ficado, teria ouvido: "EU sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14:6).  
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segunda-feira, novembro 06, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (4)

BÍBLIAS NA UNIVERSIDADE?

Em 2011 um dos grandes jornais de São Paulo publicou uma matéria intitulada “A Bíblia do Mackenzie,” onde o articulista comentava a entrega da Bíblia do Mackenzie pelos capelães aos calouros. A prática é antiga na Universidade e ganhou publicidade apenas mais recentemente. Este mesmo jornal noticiou um fato curioso sobre o Nobel Orhan Pamuk, que em dezembro do ano passado falou aos estudantes do Mackenzie e recebeu de presente uma Bíblia Mackenzie trilíngue. No caminho para o aeroporto, Dr. Pamuk, que se declara ateu, deu a Bíblia de presente ao taxista que o atendeu. O fato, considerado curioso, foi divulgado nas mídias sociais.
Por que o Mackenzie entrega Bíblias a nossos alunos e convidados? A razão é simples. Para nós, cristãos em geral e presbiterianos em particular, a Bíblia não é um livro comum, mas a própria Palavra de Deus. É nela que encontramos a revelação exclusiva que Deus faz de si mesmo e dos planos e propósitos que Ele tem para a humanidade. Portanto, para nós, não há livro mais importante do que ela. Assim, ao presentearmos nossos alunos e nossos convidados com uma Bíblia, estamos demonstrando nosso mais profundo apreço por eles, pois estamos passando às suas mãos nosso mais valioso tesouro.
É importante observar que não adoramos ou reverenciamos a Bíblia, como se fosse objeto de culto. Através da história do mundo governos hostis ao cristianismo queimaram milhões de cópias da Bíblia em praça pública sem que os cristãos tenham reagido com violência ou promovido levantes e motins. Pois para nós o valor da Bíblia não está em suas páginas impressas, mas na mensagem divina ali contida.
É na Bíblia que encontramos os fundamentos da visão de mundo que permitiu que pesquisadores e filósofos cristãos lançassem a base da ciência moderna e fizessem descobertas que avançaram nosso conhecimento do mundo. Uma olhada ainda que breve na história da ciência revelará que entre os cientistas cujas pesquisas deram origem a diversos ramos da moderna ciência estão aqueles que viam a Bíblia como a revelação de Deus, ao lado da natureza. Para eles Deus havia se revelado nas coisas criadas, que eles chamavam de “o livro da natureza” e também na Bíblia, que seria sua revelação particular e especial à humanidade. Como tanto a natureza como a Bíblia procediam de Deus, não haveria entre estes dois “livros” qualquer contradição inerente. É claro que eles tinham consciência de que a linguagem da Bíblia não é científica, mas meramente descritiva dos fenômenos naturais da perspectiva de um observador comum. A maior parte destes cientistas via a Bíblia e a natureza como fontes do conhecimento de Deus, as quais se complementavam para nos dar um entendimento mais completo de Deus, do mundo e da humanidade.
Não podemos deixar de notar aqui a influência sobre alguns destes cientistas da maneira como João Calvino via a Bíblia em questões relacionadas com as controvérsias científicas que já haviam em seus dias. Refiro-me especialmente à tese de Copérnico, que a Terra se movia em torno do sol, e que estava ganhando grande aceitação. Curiosamente, a Igreja Católica, que geralmente tinha uma interpretação alegórica das palavras da Bíblia, aqui preferiu seguir uma interpretação literal dos textos bíblicos que falavam sobre o movimento do sol em torno da terra (Josué 10.13; Salmo 19.6; etc.) Na Contra-Reforma, o cardeal jesuíta Roberto Belarmino (1615) rebateu um monge carmelita que sustentava, como Galileu, a teoria do movimento da terra. Belarmino argumentou que os Pais da Igreja entendiam as passagens bíblicas sobre o movimento do sol em torno da Terra no sentido literal. Para ele, isto era matéria de fé, pois quem negava estes textos era tão herético como quem negava que Jesus nasceu de uma virgem. E esta foi a posição da Igreja Católica.
Em oposição a esta interpretação literalista, Calvino, mesmo seguindo o sistema astronômico prevalente na época (geocêntrico), entendia que a diferença entre os autores bíblicos e os astrônomos era que, em sua opinião, os primeiros escreveram de maneira popular, descrevendo as aparências, aquilo que pessoas de bom-senso fossem capazes de compreender, sem usar aquela linguagem e descrições científicas que os astrônomos usam em suas pesquisas. Ou seja, Calvino não entendia literalmente tais passagens bíblicas, preferindo ver nelas uma acomodação do Espírito Santo ao entendimento popular. Esta teoria da acomodação de Calvino influenciou grandemente astrônomos seguidores de Copérnico, nos países protestantes, como Edward Wright e provavelmente Johannes Kepler.

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Por fim, faz parte de visão confessional de educação que os alunos tenham conhecimento da Bíblia e da sua mensagem. Faz bem à mente e ao coração.
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terça-feira, outubro 31, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (3)

LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E DE EXPRESSÃO

Os conceitos de liberdade de consciência e de expressão têm recebido crescente atenção pública em nosso país em anos recentes. Entre as diversas causas, está o crescimento da pluralidade cultural, da diversidade religiosa e do relativismo como fatores integrantes da sociedade brasileira. De que maneira as pessoas podem ter e expressar suas convicções em um ambiente onde outros indivíduos pensam e se comportam de maneira diversa dessas convicções? Essa questão também faz parte do cotidiano universitário, especialmente em instituições confessionais que primam por princípios éticos ao mesmo tempo em que sustentam a autonomia universitária. [1]
Acreditar no que quiser é um direito intrínseco a cada ser humano. A consciência é foro íntimo, inviolável, sobre o qual outros não podem legislar. Faz parte da nossa humanidade termos nossas próprias ideias, convicções e crenças. E é daqui que procede a outra liberdade, a de expressão, que consiste no direito de alguém declarar o que acredita e os motivos pelos quais acredita de determinada forma e não de outra. Nesse direito está implícito o que chamamos de “contraditório”, que é a liberdade de análise e posicionamento contrário às expressões ou manifestações de outras pessoas em qualquer área da vida. A liberdade de consciência diz respeito ao que cremos, interiormente. Já a liberdade de expressão é a manifestação externa dessas crenças.
O direito individual de pensar livremente e de expressar tais pensamentos é garantido em todas as democracias do mundo ocidental. No Brasil, a liberdade de consciência e de expressão do pensamento é garantida pela Constituição em vigor. Sua origem se encontra no caput do Artigo 5º, “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, sendo assegurada a inviolabilidade dessa condição de igualdade. Se todos são iguais, todos podem expressar suas ideias, pensamentos e crenças, desde que os direitos dos outros sejam respeitados. Ao tratar dos direitos e garantias fundamentais, a Constituição diz no Artigo 5º:
 IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.
 A liberdade de expressão religiosa é decorrente da liberdade de consciência e consiste no direito das pessoas de manifestarem suas crenças ou descrenças. Aqui se incluem adeptos das religiões, do ateísmo e do agnosticismo. Por ter origem na consciência, a liberdade de expressão religiosa inclui concepções morais, éticas e comportamentais, que são desenvolvimentos da crença individual. A separação entre Igreja e Estado no Brasil significa tão somente que nosso país não adota e nem protege uma ou mais religiões. O Estado é “laico”, mas, não sendo antirreligioso, ele garante o direito de seus cidadãos professarem publicamente e praticarem a religião que quiserem, assegurando-lhes que não serão discriminados por isso, conforme o mesmo Artigo 5º:
 VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política...
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 também se preocupou em resguardar a liberdade de consciência e de expressão, particularmente a expressão religiosa. O artigo 18 diz: Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou particular. Entendemos que esse amplo reconhecimento das liberdades individuais tem fundamento no fato, nem sempre considerado, de que o ser humano foi criado por Deus.
Do ponto de vista da fé cristã, a liberdade de consciência decorre fundamentalmente do fato de termos sido criados por Deus como seres morais livres. É uma das coisas incluídas na “imagem e semelhança de Deus” com que fomos criados, de acordo com o relato de Gênesis 1.26-27.
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
O homem recebeu, por direito de criação, a capacidade de julgar entre o certo e o errado e escolher entre os dois. Ele podia livremente ponderar, analisar e, então, escolher. O fato de que ele teria de arcar com as consequências de suas escolhas diante do Criador não anulava, todavia, seu direito de fazê-las e defendê-las. É nisto que reside o que chamamos de liberdade de consciência e de expressão. Como um ser criado, o homem responde diretamente ao Criador pelo uso dessas liberdades. Ousamos dizer que uma das influências decisivas para que essas liberdades fossem reconhecidas no mundo ocidental veio da Reforma Protestante do século XVI. Os cristãos enfatizaram a necessidade da separação entre a Igreja e o Estado, destacaram o fato de que cada cristão tem sua consciência cativa somente a Deus e defenderam o sacerdócio universal de todos os cristãos. Um exemplo dos esforços destes cristãos para garantir a liberdade de expressão é o apelo de John Milton ao Parlamento Inglês, em 1644, em defesa da liberdade de imprensa (Areopagitica: Discurso pela Liberdade de Imprensa ao Parlamento, 1999).
Todavia, existem limites para a manifestação do pensamento. Sociedades plurais em países em que há separação entre Igreja e Estado sempre terão de enfrentar o dilema entre a liberdade de manifestação do pensamento e os direitos individuais. Se por um lado as leis brasileiras nos garantem a liberdade de expressão, por outro, elas também preservam a honra e a imagem das pessoas. Não se pode denegrir uma determinada pessoa em nome da liberdade de expressão.
Conforme reza a Constituição, uma das condições para que se manifeste livremente o pensamento no Brasil é que a pessoa se identifique e assuma o que disse ou escreveu. O anonimato anula a validade da expressão, ainda que ela contenha méritos, pois sugere que o autor não tem dignidade e nobreza. Também denota que essa manifestação não vem acompanhada da necessária responsabilidade pelo ato praticado.
Em sociedades multiculturais e plurais, pensamentos, crenças e convicções que são livremente expressos podem contrariar ou contraditar outros pensamentos, crenças e convicções quanto aos valores morais, crenças religiosas e preferências pessoais. Tais discordâncias, todavia, não podem ser vistas como formas de se denegrir a honra e a imagem dos indivíduos de quem se discorda. Se assim fosse, seria impossível a discussão de ideias e a apresentação do contraditório, especialmente no ambiente da Universidade. De acordo com os princípios da fé cristã, o amor a Deus e ao próximo são os maiores deveres de cada ser humano. Amar ao próximo significa respeitar o nome, os bens, a autoridade, a família, a integridade e a reputação das pessoas, independentemente das convicções religiosas, políticas e pessoais delas. Os cristãos podem discordar das pessoas e ainda assim manifestar apreço e respeito por elas. Quando cristãos deixam de amar as pessoas ao seu redor, estão violando um dos preceitos mais conhecidos de Jesus Cristo, que é amar ao próximo como a si mesmo. Os cristãos, na verdade, devem ir além e amar inclusive os seus inimigos, conforme o próprio Jesus ensinou (Mateus 5.44).
Em tudo isso, há outro elemento que não pode ser ignorado, o fato de que o ser humano, usando suas liberdades acima descritas, resolveu tornar-se independente de Deus e viver uma vida autônoma. O livro de Gênesis (3.1-24) registra esse momento, que na teologia cristã recebe o nome de “Queda”, termo que indica que essa busca de autonomia implicou em uma caída daquele estado original de liberdade de consciência e expressão. Não que o homem tenha perdido essas liberdades – ele ainda as mantém. Só que tanto a sua consciência quanto a sua capacidade de julgar e escolher entre o bem e o mal, tendo abandonado a Deus como referencial, são inclinadas ao mal, ao erro, ao egoísmo. E como decorrência, sua expressão, embora livre, reflete essa tendência ao mal.
Uma das manifestações do impacto da Queda na liberdade humana é a tendência de se procurar suprimir a liberdade dos que discordam de nós. Os que professam a fé cristã devem reconhecer que todas as pessoas, inclusive aquelas que não acreditam em Deus e que têm práticas contrárias à ética cristã, têm o direito fundamental de pensar e acreditar no que quiserem e de viver de acordo com suas crenças. Os cristãos entendem também que se manifestar contrariamente ao que pensam e fazem essas pessoas não é incitamento ao ódio, mas o exercício desse mesmo direito fundamental. Aqui citamos o dito de Voltaire, “não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo.” Essa frase fala tanto do direito que temos de discordar dos outros quanto do direito que os outros têm de discordar de nós, direitos pelos quais deveríamos estar dispostos a lutar, uma vez que, perdidos, deixam a todos amordaçados.
Liberdade de consciência e de expressão são privilégios do ser humano por direito de criação. Jamais podemos abrir mão deles sob risco de diminuirmos nossa humanidade e a imagem de Deus em nós.

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[1] Este capítulo é o texto da Carta de Princípios da Universidade Presbiteriana Mackenzie de 2011. As Cartas de Princípios são pronunciamentos anuais da Chancelaria da Universidade para a comunidade universitária e o público em geral. O texto é de minha autoria.
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terça-feira, outubro 24, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (2)
O HOMEM NA CAIXA


Deus... fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17.26-28).

Nestas palavras do apóstolo Paulo aos filósofos estóicos e epicureus do areópago de Atenas, em meados da década de 50 d.C., encontramos uma síntese da visão cristã de realidade: vivemos num mundo criado por Deus, o qual se encontra próximo de nós, embora muitos o procurem como cegos que tateiam seu caminho. Ou seja, vivemos numa realidade aberta.

Um dos quadros mais famosos do pintor inglês Francis Bacon é “Cabeça IV”, de 1949. Controverso, excêntrico, Bacon – não confundi-lo com seu homônimo, o filósofo Francis Bacon – ficou famoso pelos quadros de figuras humanas grotescas, desfiguradas e horrendas, às vezes misturadas com animais. Na opinião de Hans Rookmaaker, que foi professor de história da arte da Universidade Livre de Amsterdam, “Os quadros de Bacon são como caricaturas da humanidade, e não imagens humorísticas. São gritos altos de desespero por valores perdidos e grandeza perdida” (Modern Art & the Death of a Culture, 1970).

Tomemos o quadro acima como uma expressão dos sentimentos mais profundos de Bacon e de sua geração, que é basicamente a nossa. O que podemos aprender com o homem na caixa? De que modo ele percebe a realidade?

Primeiro, embora exista uma realidade ao seu redor, ele só pode perceber como real o que se encontra dentro da caixa. Segundo, seu mundo é fechado. Nada entra e nada sai. Portanto, seu grito é vazio. Ninguém o ouve. Terceiro, se existir uma realidade além da caixa, e esta resolver responder e se aproximar, o homem na caixa não poderia ouvi-lo.

O quadro de Bacon representa bem a situação do homem moderno após o período do Iluminismo e da prevalência do cientificismo na academia e posteriormente na cultura ocidental. Antes do chamado período moderno, o conhecimento, as artes e a cultura em geral eram influenciadas por uma visão de mundo e de realidade moldada nos princípios e valores do cristianismo. O cristianismo da Reforma protestante, com sua afirmação de que o mundo foi criado por Deus e que funciona seguindo a lei da causalidade, ela própria criada por Deus, havia libertado a mente humana do medo de ofender os deuses pela pesquisa do mundo e da natureza e havia desfeito a dualidade oriunda do gnosticismo. Tudo isto contribuiu significativamente para o surgimento da cultura ocidental e um renovado apreço pelas artes, juntamente com o Humanismo.

Muitos dos grandes artistas, pintores, músicos, escritores, cientistas e pesquisadores deste período professavam a fé em Deus ao mesmo tempo em que se dedicavam a conhecer, pesquisar, explorar e desenvolver o mundo criado por Deus. Criam num mundo regido por leis naturais, ao mesmo tempo sustentado por Deus e passível de ser tocado pelo Criador, que providencialmente agia no mundo, na vida das pessoas, na história.

Contudo, com o advento da chamada idade da razão – melhor dizendo, do racionalismo, em meados do século dezessete, o homem abandonou esta perspectiva e passou a tentar determinar a realidade através dos sentidos e da razão: só existe aquilo que for perceptível pelos sentidos e comprovado pela razão. Como Deus não pode ser comprovado por estes cânones, por mais gentil que ele fosse, foi convidado a se retirar do novo mundo criado pelo racionalismo. O homem então passa a construir ao seu redor uma realidade fechada, um mundo governado pela lei férrea da causa e do efeito, onde a realidade é somente aquilo que a razão e os sentidos podem perceber. O homem se fechou numa caixa. Mas, tudo isto lhe era imperceptível, então, dominado que estava pela euforia de criar um admirável mundo novo, que ele haveria de prevalecer e se estabelecer pelo cientificismo tecnológico.

Passados três séculos, o homem começa a sentir, hoje, os efeitos inevitáveis de estar na caixa. Os sinais disto estão em todo lugar: primeiro, nas artes, que na tentativa de achar sentido para a realidade, resolveu pular fora da caixa, em protesto contra a visão reducionista do positivismo do século XIX, sem, contudo, saber ao certo o que lhe espera do lado de fora. Artistas como Francis Bacon, e muitos outros refletem o desespero e a angústia das almas mais sensíveis que simplesmente desistiram de entender e expressar a realidade de forma sintética e coerente.

A filosofia, igualmente, foi dominada pelo existencialismo, que em suas mais diversas linhas, convida o homem a uma experiência fora da caixa, experiência que não tenha necessariamente sentido nem razão, e que não seja controlada por conceitos como certo ou errado, muito bem popularizados pelo famoso cantor brasileiro Roberto Carlos na música Emoções, onde canta “se sofri ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”.

Surge a posmodernidade, que sem negar que a realidade de fato está contida na caixa, contudo contesta a existência da própria caixa, e – por que também não, - do próprio homem e da realidade ao seu redor.

Propostas religiosas antigas, como o monismo religioso, que vê a realidade como se fosse um tecido único, como se tudo fosse Deus e Deus fosse tudo, ressurgem inclusive dentro da Cristandade mais ampla, como por exemplo, nas 95 teses de Matthew Cox, leigo católico, pregadas na mesma porta de Wittenberg na Alemanha em 2006, onde diz na tese número seis: “A ideia de que Deus está acima ou além do universo é falsa. Tudo está em Deus e Deus está em tudo”.

Tudo isto, e outras coisas mais, é o grito tremendo do homem na caixa. O homem moderno não consegue mais viver dentro dela. Quer respostas, quer sentido, quer razões, quer ser ouvido.
O que tudo isto tem a ver com os professores, mestres e alunos universitários? Creio que nosso maior desafio consiste em dois pontos. Primeiro, perceber que boa parte do desespero e do vazio existencial hoje reinantes nas mentes e corações de professores e alunos, apesar das grandes conquistas intelectuais, provém de uma visão reduzida da realidade, uma visão que pode muito bem ser exemplificada com a pintura de Francis Bacon.

Segundo, que talvez devêssemos considerar o passado e a história e aprender com aqueles que, sem negar a intelectualidade, a objetividade científica e a respeitabilidade acadêmica, estavam preparados para aceitar que a realidade é mais ampla e mais profunda do que aquilo que percebemos, vemos, ouvimos, tocamos e comprovamos. A caixa precisa ser aberta. Há um mundo maravilhoso, rico, misterioso e plenamente satisfatório lá fora.
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